terça-feira, 27 de agosto de 2013



VOCÊ FALOU MEU NOME...


Qual o significado...
de você tê-lo pronunciado?
Cris...
Você me chamou?
Sonhou?
Eu entro neste seu mundo isolado?
Meu amor!
O tempo...
Como ele passou para você?
Foi tão longo para nós.
Tão duro sem você.
Sem seu riso.
Seu jeito moleque.
Sabia que ficou um vazio?
Seria tão bom se você voltasse desse sonho de bela adormecida.
Saísse caminhando.
E sua voz enchesse a casa.
Na mesa falta você.
Jogo de cartas?
Eu nunca mais quis nem ver.
Até sua tosse enchia a casa.
Parece que a ouço... e seu riso.
Era para marcar presença sua personalidade extravagante?
Ó, minha querida!
Tantos anos...
E que falta você faz!
Parece que existia mais cor no mundo quando você chegava.
Você dizia que éramos parecidas e que era tão bom ficar ao meu lado.
Estou recordando algo tão louco e tão puro.
Quando você viu o “Di”, você se apaixonou na mesma hora.
Não se cansava de repetir que ele era lindo.
E o puxou pelas pernas.
O arrastou pela sala.
O assoalho...
A roupa que ele usava era azul naquele dia.
Ele amou você!
E ria tanto com a brincadeira.
Você ria ainda mais.
Parecia adivinhar que ia durar tão pouco a convivência com ele.
Ele já é um moço agora e me pergunta como você era.
Quer saber as coisas que falávamos.
O que você tinha de tão diferente.
O que vou contar? Que você preenchia espaços?
Que era um anjo?
Que iluminava o ambiente em que entrava?
Como vou contar de um riso cristalino que arranha meu peito recordar?
Como vou contar de uns olhos que tinha toda a ternura no olhar?
Como falar de uma menina meiga que se afastou de nós para viver num mundo que ninguém pode entrar?

sonia delsin 


FÊNIX


O sonho é o mesmo de sempre. O desejo é imenso e indescritível; ver a ave voltar à vida, das cinzas.
Diz a lenda que ela sempre volta; mesmo quando tudo indica que as esperanças todas já se foram.
É assim que eu a imagino: voltando das cinzas.
Cristina, eu ainda acredito que você pode despertar desses longos anos de silêncio.
O que significou para você todo esse tempo? Onde esteve?
Seu corpo esteve o tempo todo aí nessa cama.
Mas eu falo de sua alma enorme. Onde ela andou hem?
Alguma coisa muito estranha a manteve viva e ao mesmo tempo a roubou de todos nós.
Como dói ver esses enormes olhos abertos que parecem passar por nós sem nos ver! Ou quem sabe se você não vive numa outra dimensão vendo mais do que possamos imaginar que se possa ver?
Cris, eu queria entender mais. Queria poder agarrar essa sua alma que não sei se ainda está com você.
Às vezes chego a pensar que você viaja pelas esferas, e vai e volta desse corpo frágil.
Você toca no mais íntimo de nós. Você fala mais do que quando podia usar sua vozinha infantil e levemente estridente. Você faz com que a gente se ponha a refletir mais no sentido da vida.
Sim, a verdade é que esse seu corpo ficou para mostrar para todos nós que existe algo maior do que podemos imaginar.
Sonho com você voltando.
Ainda queria poder conversar com você e usufruir de sua companhia tão agradável.
Mas será que sua volta seria triunfal como "fenix"? Será que você seria a mesma Cris? A mesma pequena "Tiutia"?
Eu confesso, nós não entendemos nada de eternidade, de vida e de morte, nada.
Somos completamente ignorantes dos mistérios do mundo.
Por mais que tentemos nos agarrar a um ideal forte, uma convicção; somos quais velas frágeis jogadas no imenso oceano.
Acho que você aí nesse leito não é uma prisioneira.
Gosto de imaginar que você está solta e livre e que seu corpo é a resposta para as pessoas.
Tomara que eu esteja certa, tomara que você não esteja sofrendo. Tomara que o sofrimento seja só o nosso de não podermos tê-la conosco.
Deus! Como é difícil entender o triste drama que se abateu sobre você e sua família!
Quantas vezes eu a senti tão próxima!
Quantas vezes pedi para você voltar!
Até entender que deve existir uma razão par o que lhe aconteceu e que nenhuma pedra muda de lugar sem o consentimento de Deus.
Cris, essa é a sua história, a nossa. Sei lá!
É uma história de dor, mas é também uma lição de vida. Não pode ter acontecido simplesmente.
Eu rezo silenciosamente e peço o melhor para você.
Cansei de pedir para você voltar e se nunca tive a coragem de pedir a Deus que a levasse de vez me perdoe; se era o que desejava.
Agora eu peço que se realize o que você mais deseja. Peço ao Pai Eterno que nos dê coragem.
Se você voltar um dia que seja da melhor forma. Que seja uma nova Cris, ou aquela menina tão doce.
Não ouso dizer que o mundo é lindo e que você tem uma vida inteira pela frente.
Não sei o que você viveu durante todo este tempo. Nem sei se viveu.
Você era boa no jogo de cartas. Quem sabe se não estará escondendo o jogo? Será que no final dará uma cartada de mestre?

sonia delsin 


AO MEU PAI

Pai, no mundo espiritual onde você habita agora o tempo já não conta mais, ou conta?
Já se passaram dois anos, e custa-me crer que estamos tanto tempo sem você!
O mundo parece que ficou mais vazio sem sua presença contagiante.
Sabe, pai, eu sempre soube que era tão importante para você!
Seus olhinhos brilhavam tanto quando eu chegava e eu via neles tanta tristeza quando eu me despedia, nos últimos anos.
Às vezes penso que estou sendo mal agradecida a Deus, pois tenho tantas pessoas amadas ao meu redor, mas falta você...
Pai, os seus últimos dias de vida foram tão duros. Estivemos tão interligados naqueles dias.
A sua hora derradeira pegou-se desprevenidos. Estávamos só os dois e eu custei a acreditar que você estava indo para sempre.
De mãos dadas estávamos e eu lhe doaria anos de minha vida, sem hesitar um só instante.
Seus olhos fitavam os meus e eu via medo nos seus.
Eu lhe falava, mas eram palavras soltas no vento. Você já não me ouvia.
Divisava ao longe alguma coisa que me escapava.
Pai, eu vi você ir-se e doeu. A ferida ainda dói.
Tento apagar da memória essas lembranças dolorosas, mas nem sempre consigo.
Elas voltam. Voltaram agora, neste momento em que escrevo.
Pai, eu fui a filha que mais lhe trouxe preocupações. A que mais mexeu com seu coração.
Fomos tão sincronizadas um ao outro. Era tão bom! Você parecia ler nos meus olhos as mensagens todas e eu sentia que você compreendia a minha alma.
Eu sabia que a minha fragilidade mexia com você, e às vezes queria lhe mostrar uma força que nós dois sabíamos que eu não tinha.
Ó meu querido, estou continuando a minha luta aqui! Você continua a sua aí?
Como eu gostaria de saber como foi para você chegar do outro lado. Eu também o achava frágil e queria protegê-lo.
Até qualquer dia, meu querido.
Vamos fazer de conta que a morte não existe. E existirá de fato?

sonia delsin 


MÃE QUERIDA

Hoje, tão logo acordei, o telefone tocou.
Em pleno domingo de manhã, só podia ser você minha mãe!
Ouvi sua voz querida me contando que as acácias desabrocharam, que as rosas vermelhas estão lindamente enfeitando o seu jardim e umas belas flores (sempre me esqueço o nome delas e você o disse ainda hoje) abriram-se, às centenas.
Mãe, eu senti a solidão na sua voz e uma cobrança não feita com palavras.
Senti que você me desejava aí para apreciarmos juntas a beleza da primavera irrompendo em seu jardim.
Ai, que vontade de sair correndo, atravessar morros e vales e estar ao seu lado!
Enquanto nos falávamos ao telefone eu pude me sentir aí. Juro que pude sentir o perfume das flores, vi os cachos de acácia se debruçando sobre o caule. Pude sentir a maciez das pétalas das rosas. Pude apreciar os beija-flores e as borboletas fazendo festa.
Ó mãe, eu sei que você não consegue viver longe dessa casa onde viveu por tantos anos, ao lado de meu pai!
Eu também não saberia viver longe de minhas lembranças...
Quando você vem passar um tempo conosco eu vejo que nos primeiros dias até fica empolgada com as novidades, com a alegria de estar ao nosso lado.
Mas depois, eu sinto que você já não é feliz aqui. Sente falta dos parentes, dos amigos, da casa, do jardim...
Mãe, às vezes eu acordo no meio da noite e fico pensando em você.
Perco
o sono, fico cismando. Trago de volta tudo que vivemos juntas e penso que seria tudo tão mais fácil não fosse o sentimentalismo.
Sinto que não posso preencher o vazio de sua vida, porque sempre ficaria faltando alguma coisa.
Vocês viveram uma longa história e eu sei a falta que ele lhe faz.
Quando estou aí percorro com os olhos os cômodos todos, o quintal, cada canto procurando-o.
Mãe, ele se foi. Mas deixou um pouco de si em cada cantinho.
Não sei como você consegue conviver com todas essas coisas que lembram ele... não sei...
Embora saiba que também agiria exatamente igual a você.

sonia delsin 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013



PAI

Pena que não me lembro de quando era ainda um bebê.
As pessoas me contam que você vivia a me carregar para todo canto.
Devo ter gostado tanto disso!
Já um pouco maior eu guardo as minhas lembranças. Lembro-me de você brincando de bola comigo. Uma bola plástica azul e rosa, com uns desenhos em alto relevo do Pato Donald. Quantos anos eu teria, quatro ou cinco?
Você a chutou e ela rolou barranco a baixo indo cair no córrego. Não medi conseqüências, corri atrás dela e me joguei na água suja para tentar recuperá-la.
Não a recuperamos porque você só se preocupou em me socorrer depressa.
E quando eu o chateava com pedido: Deixa? Deixa?
Algumas vezes eu o vencia pelo cansaço.
Você era o meu herói. Lembro-me que era um homem autoritário e paciência nunca foi o seu forte.
Você foi um homem tão bonito, com seus cabelos tão pretos, seus olhos castanhos esverdeados. E o bigode que tanto eu lhe pedi que raspasse uma vez só para mim... nesta parte você nunca cedeu. Nunca o vimos sem o bigode.
Meu pai, você era um homem simples, mas existia alguma coisa especial que o fazia diferente. Chamam isso de carisma.
Eu adorava vê-lo trabalhando porque via que punha amor em tudo que fazia. Seu sangue italiano falava alto em você.
Como
amava a terra, a natureza!
E como falava, ó Deus! Argumentava o tempo todo. Queria que a última palavra sempre fosse a sua.
Na nossa meninice víamos você vestir todas os finais de tarde um terno bem discreto e sair.
Isso fazia parte de você.
Eu sempre esperava acompanhada da mãe lá na sala, enquanto ela me contava história e enquanto os velhos fantasmas nos visitavam.
Era tudo fruto de nossa imaginação? Talvez fosse mesmo.
Quando você chegava nos trazia sempre alguns doces. Os docinhos em formato de carrinhos e homenzinhos eram os meus preferidos. E cocada fita!
Você não me beijava efusivamente como eu desejava ser beijada. Me beijava só com os olhos e eu entedia tudo o que eles me diziam.
Eu o temia muitas vezes, mas o amava tanto! Os manos nem se aproximavam muito de você naquele tempo. Tinham certo receio.
Eu me arriscava mais e não me lembro de nenhuma surra, só me recordo de frases assim: “Não me amole menina”, “Deixa disso”, “Não insista”, “Vê se cria modos garota” e “Não, não e não”.
Em muitas ocasiões você demonstrou me amar intensamente e isto eu guardo no coração.
Talvez tenha compreendido a minha alma mais que qualquer pessoa do mundo. Você sentia quando eu sofria e era só com seus olhos incríveis que me acariciava. E que olhos, que carícias!
São tantas as lembranças de minha infância, tão doces!
De minha juventude tantas dores vividas.
Quando ficamos adultos, você já havia se desarmado daquela pose de pai sisudo e nos mostrava tal qual era lá no íntimo.
Que pessoa sensível se escondia lá no fundo!
Aos poucos fomos descobrindo-o, mas a depressão o enlaçou e quantos estragos lhe fez.
Pai, eu o sinto tão vivo ainda em mim. Para onde a morte o levou que você parece estar aqui, bem do meu lado, me vendo escrever.
Não quero mais recordá-lo naquele seu fim de vida no hospital. Me recuso a lembrá-lo morto.
Sinto que você está aqui, bem aqui, a me proteger de tudo... só com seus olhos maravilhosos. Sinto sua presença. Você não morreu, meu pai...

sonia delsin 


A ALGUÉM QUE DEIXOU SAUDADES...

Meu querido tio, remexendo hoje numa caixa onde guardo velhos retratos, deparei com duas antigas fotografias suas.
Uma de frente, outra de perfil. Nas fotos você está com uma longa barba branca. Um perfeito Papai-Noel!
Enquanto e meus dedos deslizam sobre as velhas fotografias acaricio-as com os olhos.
Já se passaram quase vinte anos que você nos deixou. (Que mistérios as cortinas do tempo escondem que os mortos permanecem tão vivos dentro de nós?)
Tio, eu ainda posso ouvir sua voz e a maneira única que você tinha de dizer o meu nome.
Quando vivo nunca lhe envie uma só carta e não me lembro de ter dito uma única vez o quanto lhe queria bem.
Acho que nem precisava...
Você também nunca me disse, mas eu sentia o quanto me amava.
Quando eu era ainda uma menina você vinha nos visitar e trazia sempre uma porção de amigos. Eu adorava quando você chegava e nem pensava o quanto era difícil para meus pais hospedarem tantas pessoas.
Você era uma pessoa assim... sem limites, sob vários aspectos.
Enquanto escrevo fico imaginando se você estivesse aqui para lê-la, consigo mesmo imaginar a expressão de seu rosto.
De cada olho brotaria uma lágrima e desceria pela sua face.
Posso mesmo ver seus olhos negros, líquidos olhos...
Eles se enchiam de lágrimas quando você me contava as coisas da sua infância, de como fora difícil ser criado sozinho “neste mundo de meu Deus”.
Por quantas situações embaraçosas você passou até conhecer minha tia e casar-se com ela!
Tio, não havia laço de sangue nos unindo, mas existiam afinidades e carinho. Que podem significar os laços de sangue perante o amor?
Você deixou marcas em mim, muitas marcas.
Um dia eu comi uma conserva de jiló que você preparou. Só comi para lhe agradar. Você havia preparado com tanto gosto! Eu odiava jiló, mas amava você...
Como foram tristes seus últimos anos de vida! Aquela doença ingrata lhe fez sofrer tanto... e a todos nós.
A tia me presenteou com as fotos logo depois de sua morte. Contou-me que foi a única vez que você deixou a barba crescer.
Guardo os retratos com carinho e guardo-o afetuosamente em meu coração também. Um dia quem sabe a gente se reencontre... quem sabe...

sonia delsin 


QUERIDO EMANUEL

Todas as tardes você vinha me ver. Não que eu fosse naquele tempo uma companhia agradável. Não, agradável era você!
Trazia sempre um sorriso no rosto e me estendia a mão com ternura.
Querido Emanuel! Nossos papos daquele tempo foram tão proveitosos.
Eu era uma pequena rebelde. Rebelava-me contra a realidade nua e crua e você vinha me contar coisas corriqueiras que me motivavam a crer no mundo.
Naqueles tempos eu desconhecia tantas coisas e experimentava a dor, a dor que leva ao desespero.
Você era bondoso por natureza e a natureza fora ainda mais prodigiosa em fazê-lo padre.
Você era especial com seu sorriso terno e com sua voz macia. Suas mãos seguravam as minhas e olhando nos meus olhos você me falava.
Éramos confidentes. Não que eu confessasse coisas a você como a um padre. Não, só éramos amigos e para os amigos eu podia falar o que eu pensasse. Eu desabafava meus sofrimentos, chorava no seu ombro.
Eu sei que você não achava perdido o tempo que passava comigo, você estava fazendo o seu papel de padre. Às vezes eu era intragável e em seus olhinhos tristes formavam-se lágrimas que você não derramava.
Pensava até que qualquer hora você descobriria que eu era um caso perdido, mas que nada! Você voltava com seu sorriso doce, mesmo quando na véspera eu fora tão azeda.
Ó Mane! Amigo de um tempo em que lutei bravamente com a vida.
Quando eu consegui vencer a primeira batalha quis que você compartilhasse da minha vitória e você ria e chorava comigo naquele dia.
Parecíamos até dois bobos a comemorar.
Nós nos desencontramos pelos caminhos do mundo.
Seu presente para mim foi um Evangelho que guardo como uma preciosidade. Certa vez você me enviou outro presente, um crucifixo de prata, que guardo com carinho imenso.
Desejei que fosse o padre a me casar, mas você se encontrava fora do Brasil naquela época.
Acabou celebrando o batizado de meu filho caçula tantos anos depois.
Meu querido amigo, sei que está tão envelhecido. Que mora numa cidade um tanto distante da minha.
Nunca mais aconteceu de nos reencontrarmos, mas não o esqueci jamais.
Você foi um dos anjos que Deus enviou para mim num tempo em que o que eu mais carecia de anjos.

sonia delsin 


LEMBRANÇAS...

Pai, hoje eu acordei pensando ainda mais em você. Você sabe como o tempo aqui é contado para nós. Como é tudo aí? Existe tempo também?
Veio à minha mente, logo que acordei, conversas que nós tivemos há tanto tempo.
Sua voz, ainda a ouço nas lembranças.
Sua sapiência me faz falta. Como eu precisava ouvir seus conselhos ainda.
Sabe, eu estou recordando a nossa terra! Tantos fatos se passaram lá.
Você e minha mãe foram uns heróis. Tanto sofrimento! Recordei um fato que se passou quando eu tinha uns quatro anos. Veio à minha memória todinho, como se o tempo tivesse parado nele.
Estávamos a Ju, eu e o bebê sob aquela jabuticabeira. O meu irmãozinho estava dentro de uma grande bacia, envolto em panos. A mãe deixara-nos cuidando um pouco do bebê enquanto apanhava limões.
A Ju e eu éramos primas tão unidas. Tínhamos a mesma idade. Diferença de dezoito dias apenas.
O bebê começou a choramingar e o olhamos. Foi aí que vimos a cobra se aproximando, aproximando.
Éramos duas garotinhas de quatro anos e cada qual pegou um lado da bacia e foi arrastando-a, arrastando-a para longe da cobra. Gritamos, como gritamos pela minha mãe naquela hora!
Ela chegou e com um pedaço de pau matou a cobra. O bebê sorria inocentemente. Meu irmãozinho querido dentro da bacia sorria. Como ele era lindo!
Por que será que relembrei este fato? Não sei mesmo!
Mas o que eu queria mesmo lhe dizer é que eu não o esqueço. Sei que você vive agora num outro plano. E nós ainda estamos aqui, a vida continua.
Sinto saudades de nossos papos sob as murtas. Algumas coisas mudaram por lá. Você deve saber...
Pai, esta carta é só um desabafo. É a maneira que encontro para lhe falar.
Quando nós nos falávamos eu nunca me abria muito, você entendia-me sem palavras. Conhecia minha alma, creio eu.
Nunca dizíamos que existia amor. Mas amar é mais demonstrar que dizer.
Lembrei outro fato agora. Foi tão doloroso quando vi a minha seringueira cortada. Que juízo eu tinha, plantar uma seringueira do lado do muro! Eu sei que para você também doeu cortá-la.
As lembranças doem e acalantam... (gosto das recordações) minha infância... Tudo que vivemos. Nós reunidos em volta da mesa na hora das refeições.
Com o tempo você não queria mais se sentar no seu lugar, na cabeceira da mesa, e nós insistíamos para que continuasse a desfrutá-lo.
Meu primeiro filho, seu primeiro neto! Quanto amor você demonstrou! Você ficava com uma cara de bobo quando o pegava ao colo! Você o embalou tão carinhosamente. Mais de vinte anos se passaram e eu não esqueço a sua expressão ao olhá-lo.
Eu não me despeço nesta carta, porque você vive comigo, nas lembranças. Parece estar ao meu lado, agora mais que nunca.
Meu querido, um dia nos reencontraremos?

sonia delsin 


FLORES PLÁSTICAS

Meu pai, a última vez que visitei a campa onde descansam seus restos mortais eu vi umas flores lá e não gostei.
Plásticas, e já desbotadas pelo efeito do sol.
Meu querido, você que amava tanto as flores naturais!
Lembrei dos hibiscos sempre floridos. Você retirava o “narizinho” e o colocava na ponta do meu. Nariz de bruxa, com verruga grande.
Quando nos sentávamos para admirar o jardim do alto das muretas era tão bom! Falávamos das flores, da natureza.
Ou da janela, quando admirávamos a roseira vermelha com aquelas pencas de rosas encantadoras.
E as abelhas! Gostávamos sempre de admirá-las... (Sabe, eu nunca mais me sentei para olhá-las, como fazíamos juntos).
Ou simplesmente quando ficávamos debruçados na janela olhando as paisagens. A montanha de pedra que tanto significado teve em nossa vida, e que se pode avistar de lá. Também os ipês floridos das chácaras vizinhas.
Eu sinto que você merecia uma sombra enorme sobre sua campa. Uma árvore que florisse o ano inteiro.
Na sombra delas é que você adorava se deitar em vida.
Acho
tão triste seu túmulo. O silêncio que o envolve agora me deixa angustiada quando vou visitá-lo.
Mas eu sei que você habita outras moradas. Há flores nelas e abelhas. Deve haver muito verde nas paragens por onde você anda agora.
Meu pai, a saudade que sinto é grande. Ninguém preenche o vazio que ficou, ninguém. Era um lugar que era só seu e continua sendo.
Confesso que fiquei meio oca sem você por perto.
Eu sei que as flores plásticas não o magoam porque sabe que as naturais murcham rapidamente com o calor e com o sol abrasador.
São simbólicas. Tentam enfeitar um pouco a sua campa triste todo o tempo.
Essas coisas não devem importar nada para você. Nem eu deveria me incomodar com isso, mas me incomoda um pouco.
Gostaria de ver sua campa em meio a um jardim, com lindas roseiras e beija-flores.
Na verdade nada disso importa mais. O seu caminho você já caminhou.
Posso lhe dizer meu pai. Você se foi... mas tanta coisa me deixou.

sonia delsin 


BELA ADORMECIDA

Cris... faz já algum tempo que não a vejo.
Que saudades, Bela Adormecida!
Tantos anos, minha menina... e nada mudou.
Mudou para você?
Em que canto do mundo anda você?
Seu corpo está sobre este leito há tantos anos.
E sua alma onde andará?
Estes seus olhos encantadores não nos fitam.
Palavras você não pronuncia.
Esta sua expressão de ausência nos machuca.
Dói... ó como dói lembrar seu delicioso riso.
As palavras... as últimas que ouvi você pronunciar... não me esquecerei jamais delas.
Falamos por telefone naquele dia.
Foi alguns dias antes do triste acontecimento que a roubou de nós.
As palavras não se apagam de mim.
Seu riso, seu jeito de ser não se apaga.
Olhando esta Cris apática de hoje vejo a menina tão alegre de outros tempos.
Não conseguimos compreender o que houve com você.
Por que tudo isso? Por quê?
Devem existir razões ocultas que estão muito além de nossa compreensão.
Mas é doloroso demais e os anos não mudam nada.
Não nos trazem a conformação, não nos trazem um lenitivo.
Dói sempre vê-la desta forma.
Não conseguimos aceitar porque não conseguimos compreender a necessidade de tudo isso.
No início desejava vê-la curada e a mentalizava andando, falando. Na verdade levei anos pensando assim.
Depois descobri que você não está propriamente doente. Está suspensa entre duas eternidades. Algo a leva e algo a deixa aqui para nós.
Você é a resposta que muita gente precisava ouvir. Você é uma luz na escuridão.
Não sabemos se sofre e o quanto. Mas todos nós sofremos em vê-la assim...
Já não digo acorda Bela Adormecida quando a olho tão ausente de nós...
Existem razões para tudo... deve existir uma forte razão para o que aconteceu a você.
Nós desconhecemos e sofremos e pode até ser que você nem sofra. Se tivéssemos esta certeza não sofreríamos tanto, mas nós não a temos.
Será que um dia tudo isso se elucidará? Será que um dia... a veremos sair deste estado?
Nada sabemos. Esta é a única verdade que conhecemos. Não entendemos de eternidade.
Gostaríamos de trazê-la de volta. Mas não sabemos onde está, se está bem. Se tudo isto é tão necessário a você e a nós...
Minha linda menina, quando a olho só consigo trazer de volta o seu sorriso, que nunca mais apareceu em seu rosto! Quando a vejo tão silenciosa no seu mundo que não entendo, só posso ouvir sua voz dizendo coisas que moram no passado.
Cris... por onde anda você? Qual é o seu mundo afinal?



sonia delsin 


AMIGOS DE TODOS OS TEMPOS

Desfilam à minha frente.
Perfilados. Um a um.
Vejo-os com os olhos da memória.
Tenho quatro ou cinco anos.
Companheiro de traquinagens.
Meu avental tão sujinho.
Francisquinho.
Onde anda você?
Será que ainda moro em sua lembrança?
Tenho seis anos agora.
Mário Travessa.
Recordo seus olhos... quase incolores as íris de tão claras.
Agora José Carvalho. Cada vez que olho uma caixinha de lápis de cor lembro-me de você.
Já tenho sete, oito anos.
Djalma, o mais belo do colégio.
Ricardo, eu não conseguia deixar de lhe passar “as colas” para as provas.
Dirceu, seu senso de humor mudou com os anos?
Toninho, você partiu para o andar de cima. Como é tudo por aí?
Mané, você eu precisava reencontrar. Não saciei toda a vontade de uns puxões de orelha lhe dar.
João, eu servi de pombo-correio. Os bilhetinhos surtiram efeito, resultou em casamento.
Carlinhos
, a serenata eu perdi, mas as rosas ainda estão guardadas no meu coração.
Régis, você ficou com o meu livro e eu não me esqueci.
Mário Donizete, você chegou lá. Alcançou a sua meta. Parabéns!
Mário, aquele seu olhar tristonho se alegrou com os anos?
Luizinho, eu soube que você a conquistou afinal.
Ricardo II, o meu coração já tinha dono.
Silvio, você sempre foi sério demais, aprendeu a sorrir mais?
Pedro, dizem que a vida ensina... você aprendeu?
Evandro... como professor você foi um fracasso. Como amigo um sucesso.
Rui, que professor você foi!
Reinaldo, hoje em dia eu não faço mais aquela bolinha que lhe irritava tanto em cima do i.
“Teacher”, qual era mesmo o seu nome? Só aprendi a chamá-lo assim.
Máximo, amei a matéria que me ensinou, mas meus colegas odiaram. O andar de cima o chamou há tantos anos.
Biliu, não consegui aprender nada de inglês com você.
Carlos, História foi mais História com você.
Dilhermando, a “polenteira” ainda o recorda. Soube que você também já partiu para o além.
Décio, artes era muito melhor com você. Você também se foi.
Ezio, eu era a sua aluna preferida e você fazia questão de ressaltar que tinha essa predileção por mim.
Oswaldo, para você eu nunca cresci.
Mingo, sua bondade ainda me toca.
Valdir, as fazendas só moraram em nossas fantasias. O “Haras” não chegou para nós. Soube quando você também se mudou aí para cima. Seu carinho comigo deixou marcas profundas.
“Cutuca”, você conseguia me fazer sorrir por entre lágrimas.
Os amigos de ontem moram em meu coração, aos que foram eternas saudades, aos que nunca mais encontrei digo que desejaria rever. Aos que não me referi nesta lista também digo que lhes guardo com carinho imenso em meu coração.

sonia delsin 


VOCÊ SABIA?


A vida pode ser mais simples.
Tão mais simples.
Nós é que complicamos tudo.
Já se sentou numa praça, numa cidadezinha?
Já ficou a olhar as andorinhas?
Já ouviu as cigarras a cantar em várias árvores ao mesmo tempo?
Uma orquestra onde se misturam o som de sinos, maritacas, sabiás e pardais?
Já se sentou à beira de um lago e ficou a observar calmamente os peixes?
Já ficou horas sob uma árvore simplesmente desfrutando de sua sombra?
Observando a disposição dos galhos, o formato das folhas...
Já ficou simplesmente sentando num banco, sentindo a brisa leve?
Olhando o sol se levantar ou se deitar?
Olhando a vida passar.
Sem pressa de se afastar.
Simplesmente deixando o tempo levar todas as dores, as dúvidas, as certezas e as incertezas.
Você sabia que vale a pena viver? Que sempre vale a pena.
Por tudo que existe e nos rodeia. Pela praça, pelo banco, pelo ser que se senta na praça...


sonia delsin 



PISANDO NAS NUVENS...

Que sentimento é este que o faz pisar nas nuvens?
Que olhar é este tão vago?
É um olhar que só consegue enxergar o rosto da mulher amada, eu sei.
Eu sei que você a tem diante de si o dia todo e quando está perto se sente acima dos homens.
Acima dos homens que não descobriram ainda o amor.
Eu o conheço e sei o que se passa com seu coração.
Sei o que é estar amando pela primeira vez.
Ainda mais para você que é uma pessoa tão especial.
Eu sempre soube que um dia você encontraria alguém que lhe faria tanto bem.
Sabia que vocês dois seriam dois seres completos juntos.
Estou feliz de ver que a encontrou e senti desde o primeiro instante que foram feitos exatamente um para o outro.
Ela também dá a impressão de que vive pisando nas nuvens.
Tem uma expressão apaixonada nos olhos líquidos.
Era assim que eu imaginava uma mulher para você.
Uma mulher silenciosa, calma.
De olhos grandes, circunspecta.
Sua felicidade é a minha felicidade. Você nem sabe como me sinto feliz agora. Sinto que a vida segue seu curso natural.
Seja feliz, meu filho! 

sonia delsin 




DEUS

Um amigo levou-me a refletir (ainda mais do que habitualmente já faço) sobre a minha fé em Deus.
É lógico que tenho uma religião, mas confesso que nem tudo que ela prega me convence.
Gostaria até de ser como certas pessoas que seguem uma religião ao pé da letra e não questionam nada, mas não é assim que sou.
Não sei se me falta uma fé inabalável ou se é porque sou por natureza uma pessoa muito reflexiva.
Porém, de uma coisa estou convencida, acredito em Deus.
Mas
o meu Deus não é aquele que nos pune, não é aquele que nos leva ao paraíso ou ao inferno dependendo de nossos atos. Porque eu não acredito em punições e recompensas eternas.
Acredito num Deus Amor, um Criador apaixonado pela criação. Um Pai que caminha conosco pelas estradas da vida.
Encontro tamanha alegria em sabê-Lo ao meu lado, dentro de mim. Rindo com minhas alegrias e chorando com minhas dores.
Creio que Ele nos dá a vida de presente e caminhos a escolher. Mostra-nos a cada minuto onde encontrar a felicidade.
Basta abrirmos os olhos...
Às vezes sinto que me perco Dele, que me distancio, que me confundo com os prazeres do mundo. A matéria me chama forte e vivo só para ela. Até chego a me esquecer Dele.
Então encontro a tristeza, o vazio em mim e O busco de novo.
Envergonhada o procuro e Ele me estende os braços...
Peço aos meus leitores que me perdoem se pensam diferente de mim. Eu só coloquei aqui a minha maneira de enxergar as coisas. O meu jeito de conhecer Deus e amá-Lo.
Se acharem que estou errada peço que deletem tudo... em suas mentes... esqueçam o que leram...
É só a minha maneira de amar a Deus e conhecê-lo. Não consigo aceitar outra.


sonia delsin 


O CAMINHO PARA O SOL...

Fênix conhece o caminho para o sol...

A estrada pode ser cheia de espinhos, cheia de pedras pontiagudas.
Ou podemos transformar nosso caminho em um lugar cheio de flores, borboletas e colibris.
Depende muito de nós.
Tudo isso nos é dito em tantos livros.
A própria vida parece nos querer provar isto.
Tento com todas as minhas forças acreditar que nós é que fazemos a nossa própria escolha, mas é lógico que há horas em que temos a impressão de que existe destino e temos que experimentar certas coisas.
Tento fazer do meu caminho um lindo lugar para viver e felizmente estou conseguindo.
Há horas em que as coisas vêm de outras formas. Momentos duros temos que passar e os passamos.
Mas num todo vamos vivendo.
O que me intriga mesmo é ver alguém caminhando por um caminho tão triste. “Um caminho parado no ar”.
Cris... é de você que falo. Minha doce Cris.
Que caminho é este?
Existe escolha para um caminho assim?
Quando a olho eu penso tantas coisas. Penso no que passou. Nos momentos únicos que vivemos juntas.
Penso no seu sorriso que morreu. Na sua voz que se perdeu no tempo.
Fênix renasce das cinzas...
Eu sonhei tantas vezes de olhos fechados ou abertos com seu vôo. Com sua libertação.
Depois fui compreendendo que deve existir um motivo para isto. Deve existir. Mesmo que nós desconheçamos deve haver uma razão maior.
Estes anos. Tantos. Quase treze já.
Este silêncio. Esta sua luta com a vida. Não é luta estar aí neste leito há tantos anos?
Este não partir e não ficar é que mexe com a gente.
Sabe, houve um tempo em que eu a via no portão com um vestido listrado. Com o cabelo bem curto. Uns brincos compridos. Um sorriso lindo.
Não é do tempo em que você estava saudável isto.
É dum tempo depois que você ficou neste estado.
Eu a via assim porque desejava vê-la desta forma. Isolava-me do resto do mundo e criava esta imagem dentro de mim.
O vestido tinha umas listras violetas e verdes. Era um vestido que descia pouco abaixo do joelho e nos pequenos pés você usava umas sandálias; daquelas que são amarradas na canela.
Meu Deus! Visualizei tantas vezes você assim. Tentei trazer você de volta desta forma.
Era tão fácil fazer isto. Eu fechava os olhos e via você saudável, rindo, fresca.
No meu imaginar você havia acabado de sair do banho e os cabelos ainda pingavam água.
Como era gostoso fazer isto!
Você não tem ideia de quantas vezes eu a vi no portão...
E a realidade é você neste leito, nesta cadeira de rodas. Neste estado que se prolonga pelos anos e as respostas...
Nem todas compreendemos.
Cris... houve um tempo em que eu a sentia tão próxima a mim. Tão pertinho. Bastava pensar em você e já parecia estar ao seu lado.
Depois fui sentindo você mais distante.
Sua mãe também acredita que Fênix renasce das cinzas. Cria umas asas fortes e voa de encontro ao sol.
Você já alcançou o sol e nós ignoramos?
Cris... Cris...
Acho que nós é que não sabemos de nada. Esperamos que volte e você conhece o melhor caminho que seu espírito necessita trilhar.
Não é isto?
É assim que penso hoje.
Seu caminho era este? Era necessário à sua alma ficar todos estes anos suspensa entre duas eternidades?


sonia delsin 


NÃO É BEM ASSIM

Certa vez eu conversava com minha mãe. Falávamos das ilusões. Dos sonhos.
Ela me disse que já não sonhava mais, que o seu tempo de ilusões havia passado.
Mas me disse também que não devemos deixar morrer isto dentro de nós, porque a vida perde o sentido.
Ela havia perdido meu pai há bem pouco tempo quando tivemos esta conversa e seu coração estava tão machucado.
Eu a entendi e vi nos seus olhos um vazio que não existia antes.
Fiquei pensando no dia em que eu também teria que viver da realidade nua e crua.
O tempo foi passando. Suavizando as dores, curando as feridas.
Eu vi de novo o brilho em seus olhos.
Lógico que há horas em que uma tristeza se estampa em seu rosto. Quando ela fala dele eu sinto que existe um espaço vazio que nada preencherá jamais.
No tempo em que ele era vivo ela enfeitava a casa. Adorava toalhas de crochê e flores. Sempre houve flores por todo lado em sua casa.
Chegávamos na sexta-feira ou sábado para visitá-los e a casa estava sempre linda, cheirosa. Cada cantinho daquela casa parecia nos dizer: Seja bem vindo. Estava a sua espera.
E cada refeição deliciosa que ela sempre preparou para nós!
A casa toda é acolhedora. Existe uma magia nela. Algo que nos faz sentir vontade de correr para lá quando alguma coisa está nos machucando.
Bem, voltemos ao assunto principal.
Ela me falou que já não mais se iludia. Que nada que acontecesse podia tocá-la mais.
Fiquei tão triste. Logo ela que sempre fora tão calorosa, tão cheia de fé.
O tempo tem este dom de tudo colocar em seu devido lugar.
Aos poucos ela voltou a sorrir. Voltou a achar graça na vida.
Ela voltou a cuidar do jardim, do quintal enorme. Voltou a enfeitar a casa, como se ele ainda estivesse por perto.
Quando chegamos é uma festa só. Mas quando partimos...
Nunca podemos dizer que o tempo das ilusões se foi. Quando ela soube que ia nascer um bisneto ficou tão empolgada.
Nasceu há cerca de um mês sua primeira bisneta. Eduarda veio ao mundo para trazer uma mensagem. Este bebê veio nos dizer que existem sempre esperanças. Que a vida é um contínuo ciclo.
Não conheço ainda minha primeira sobrinha neta. Estou ansiosa por conhecê-la. Disseram que ela é linda e deve ser mesmo. Tem olhos azuis.
Lembro que falei à minha mãe naquele dia que conversávamos: Mãe, não é bem assim... ele se foi, é verdade. Vai sempre fazer uma falta enorme, mas a vida continua e ainda temos tanto a viver, a experimentar. O seu tempo findou, mas o nosso não. Não é bem assim...


sonia delsin

sábado, 24 de agosto de 2013



Vivendo Zen

Hoje eu liguei o meu micro e ficou olhando o papel de parede. Uma linda paisagem. Um gramado tão verde, um céu tão azul. Um violeta no horizonte...

Fiquei um tempo parada antes de entrar no arquivo do Word em que estou trabalhando e pensei um pouco na vida.

Por que uma imagem me pôs a refletir?

É que andei tão estressada nos últimos anos. Andei sofrendo e caminhei por muitas estradas antes de encontrar as razões que me levaram a desviar-me de uma trajetória que seguia tão disciplinadamente.

A minha vida corria como um rio que conhece o caminho para o mar. Tinha meus momentos íntimos. Vivia de uma forma zen. Mas eu ignorava que este mundo certinho precisava se alterar um pouco para que eu o valorizasse mais.

Todos os dias às seis da tarde eu me refugiava em meu quarto e me isolava deste mundo de ilusões e entrava no mundo verdadeiro. Nele eu tinha um santuário. Não estes santuários cheios de imagens e pinturas. Um santuário que morava dentro de minha alma.

Eu encontrava toda paz que precisava, toda tranqüilidade que meu ser sempre necessitou para viver.

Tranqüilamente eu me deixava ser carregada para lugares que só eu conhecia.

Minhas baterias não se descarregavam porque todos os dias eu as renovava e deste modo eu injetava mais prazer no meu dia-a-dia.

Via a vida com olhos tão deslumbrados que até as pessoas notavam que muitas vezes eu nem parecia ser deste mundo.

Um fato veio modificar esta minha forma de viver. Algo se quebrou dentro de mim e eu andei procurando o caco que faltava. Tentei colá-lo no lugar certo para readquirir a tranqüilidade de antes.

Passei por becos, por avenidas tão bonitas, andei por bosques e cemitérios. Andei me buscando, esta a verdade... No fundo de mim.

Aos poucos eu fui descobrindo que minhas asas não estavam deterioradas, elas só estavam guardadas. Ao meu corpo tão coladas.

Encontrei o meu sorriso enorme, o gosto pela vida. Voltei a cantar, a dançar. A vibrar como o som de uma música a se propagar.

Aos pouquinhos ensaiei pequenos vôos e hoje me encontro mais aliviada.

Procuro me libertar das últimas amarras, porque o que mais desejo é viver de forma zen.

sonia delsin



OLHOS COLORIDOS

Ele a olhou e imediatamente se apaixonou.
Pelos olhos.
E por todo o resto.
A verdade é que quando olhou aqueles olhos coloridos encontrou em sua vida todo o sentido.
A mulher tinha uns olhos penetrantes.
Envolventes olhos que o tragavam para um abismo.
-- Meu bem, traga a minha bolsa branca, por favor.
Ela pedia e Helio corria a lhe satisfazer todos os caprichos.
Quando se conheceram que loucura fora!
Na cama era fenomenal e diante da lareira a lhe acarinhar, não tinha mulher igual. Mas sabia ser chata. E como sabia!
-- Sim, a branca, meu bem. Aquela que comprei quando fomos ao Rio.
E lá Helio ia saber de bolsa branca comprada no Rio? Ela tinha umas três brancas.
Ele não gostava de bolsa daquela cor, mas ela sim. Dizia que adorava. Então deixava que comprasse.
No armário socava as outras duas e lhe aparecia todo sorridente.
O grito estridente o fazia dar um pulo.
-- Não é esta. Como é distraído, Helio! Não percebe nada.
-- Desculpe, amor.
-- Que amor, que nada. Não dá importância às minhas coisas.
Já ia ela começar de novo.
Não estava com paciência naquele dia para agüentar tanta chatice.
-- Pega você. Vou trazer outra e vai gritar de novo.
-- É fácil... é aquela que tem um enfeite dourado.
E lá foi ele de novo pra buscar a tal bolsa. As duas tinhas uns enfeitinhos dourados.
Do quarto ele gritava:
-- Não sei qual é não. As duas são quase iguais.
-- Quase iguais, Helio? E acha que eu ia comprar coisa igual? Eu que adoro exclusividade.
Ao se aproximar dela ele falou zombando:
-- Mas não teve gosto pra escolher marido.
-- Tive sim. Você é lindo – e lá vinha ela toda melosa.
Pronto. Já caia nas garras dela de novo.
Bom, pelo menos uma coisa o consolava. Era a última das três bolsas. Só podia ser aquela...
Foi buscar.
Toda sorridente ela se jogou em seus braços.
-- Vamos sair?
-- Agora não.
E ele a jogou no sofá...ficou um tempo olhando os profundos olhos e mergulhou fundo.
As pernas da jovem o enlaçaram na cintura e ela nem se lembrou que queria passear.
Seu marido estava ali, todinho pra ela amar.

 sonia delsin 



A MORTE FAZ PARTE DA VIDA



Ontem eu vi no noticiário que dona Ruth Cardoso estava doente. Hoje abri a Internet e na primeira página já vi a notícia de sua morte.
Pensei. Como admirei sempre esta senhora.
Gostava de sua postura, sempre muito discreta. Ela mostrava competência. Tinha classe. Muita classe.
A morte faz parte da vida. Ela apenas mudou de endereço e com certeza terá uma estadia num lugar muito melhor que aqui.
Assim espero.
Não podia deixar de prestar esta humilde homenagem. Vai com Deus, dona Ruth. Que a luz do eterno a ilumine nestes novos caminhos...


sonia delsin 



Estarei na Bienal


Estarei na Bienal do Livro de 12 a 22 de agosto de 2010, em São Paulo, com meu livro de contos GUARDADO NO CORAÇÃO.
No domingo, dia 22, das 16:30 às 19:00 estarei assinando autógrafos.

Espero contar com sua presença, prezado leitor.


sonia delsin 



EU A ENCONTREI...

Minha querida, eu não a esqueço.
Tantos anos se passaram desde o dia que a conheci.
Sabe, naquele tempo eu estava precisando de um coração como o seu.
Eu necessitava de alguém que me desse carinho.
Eu necessitava de um anjo que me alisasse os cabelos ternamente e não me dissesse nada.
Eu estava todo dolorida no corpo e na alma, e queria uns olhos que falassem docemente comigo.
Não queria palavras... queria gestos e olhares.
Você chegou do nada numa tarde qualquer.
Soube que eu estava doente e veio me conhecer. Veio me fazer uma visita.
Que visita meu Deus!
Não falou muito. Era seu jeito de ser.
Falava pouco com os lábios. Falava sim com os olhos cor de mel.
De vez em quando aparecia, e com que ansiedade eu a esperava!
Eu me recuperei e você aparecia menos.
Eu sabia que era uma pessoa super ocupada.
Um dia eu soube que você estava doente.
Meu coração doeu porque senti que a perderia.
Você sofreu demais e não perdeu o jeito doce, o olhar carregado de amor.
Na última vez que a vi você me disse que havia adorado a coletânea de textos de auto-ajuda que eu havia preparado especialmente para você.
Mas que era tarde demais. Seu tempo se esgotava.
A falta de ar não a deixava falar e você queria me dizer umas coisas.
Vanda, você estava diferente naquele dia. Estava falante.
Fiquei algum tempo ao seu lado e me recordo palavras que me falou, as balas que me ofereceu e a roupa que usava.
Estava tão cansada e tão bonita.
Era doloroso vê-la naquele estado. Você era tão jovem e a morte a rodeava.
Dias depois você partiu e seu corpo foi sepultado numa cidadezinha aqui perto.
Eu não pude ir ao seu sepultamento por razões muito fortes e sempre desejei visitar seu túmulo.
Sei que você não está lá. Que lá ficou só a matéria e que seu espírito imortal vive em outras paragens.
Queria lhe fazer uma visita mesmo assim.
Meu coração sempre esteve me pedindo isso.
Quase cinco anos se passaram e ontem eu estive lá.
A cidade é mesmo pequenina. Um recanto de paz.
O cemitério fica nos arredores da cidade e num ponto bem alto.
Como não havia alguém que pudesse me informar a localização de sua campa eu sai andando procurando. Fui lendo os nomes nas lápides.
Quando vi seu nome a emoção tomou conta de mim
Bem ao lado de seu túmulo plantaram um arbusto que o ensombreia. “Um pingo de ouro”.
O arbusto está tão florido...
Levei anos para ir até lá, mas esteja certa que não a esqueci.
Existem pessoas que se instalam em nossos corações para sempre e você é uma destas pessoas.
A amizade verdadeira dispensa palavras. Você me ofereceu o que de melhor havia dentro de você: sua suavidade, sua ternura, seu amor.

sonia delsin 



COMO CAPTAR ENERGIA


É fácil se “energizar”.
Vá diante do sol que está a se levantar.
Procure ficar receptivo que a energia do sol você vai captar.
De olhos fechados fique a imaginar que bem próximo a sua boca uma pérola está a se formar.
Pode engolir esta pérola que no seu estômago ela vai se instalar.
Deixe que fique lá. Para o seu corpo inteiro energia ela vai mandar.
Também pode ficar com a respiração bem leve diante do sol nascendo se tiver dificuldade em imaginar a pérola.
Basta fechar os olhos que os primeiros raios do sol são energéticos e eles não só banham seu corpo, como adentram em seu organismo.
Quando estiver muito estressado, ou desanimado, ou ainda desacreditando de tudo, vá assistir o sol nascer.
Acredito que muito bem vai lhe fazer.
É muito fácil trazer energia pra nosso ser.
Basta acreditar nas forças da natureza.
Acreditar que no nascer do sol existe mais mistério do que a simples beleza.
A energia vive a nos rodear e para recebê-la é suficiente que acreditemos. Tudo nós podemos.


sonia delsin 


ELA PEDIU UMA BARBIE...

Tudo bem... As crianças costumam pedir presentes. É normal que as meninas peçam bonecas no Natal.
Neste caso quem pediu não foi uma menina, mas uma mulher de quase sessenta anos.
Nossa linda Rose... Rosa... Flor. Nosso amor!
Ela é mesmo linda. Sua idade mental não deve ter passado dos sete anos e ela é carismática. Especial demais.
Nunca precisou crescer, porque é um dos anjos de Deus.
É enteada de minha tia e todos nós nos apaixonamos por ela tão logo a conhecemos.
Adoro seus olhos azuis cintilantes, seu riso puro, sua gentileza.
Ela nos ama e mostra isso em cada gesto.
Há algo admirável em Rose. O amor que ela sente por poesia é imenso e seus olhos brilham quando ouve um poema.
Ela é uma resposta para quem faz perguntas.
É alguém que guardo carinhosamente no coração para todo o sempre.
Não foi o acaso que a trouxe para nossas vidas. Foi algo maior, porque ela vem sempre nos mostrar tanta coisa.
Basta que tenhamos os olhos abertos e estejamos atentos.
Seu Natal foi maravilhoso. Ela agora tem a sua Barbie para trocar, para embalar.
E nós a temos como um presente dos céus para amar.

sonia delsin 


DOAR É UM ATO DE AMOR

A minha mão esquerda não pode saber o que a direita doou, senão pouco valor teve a minha oferta.
Quando entregamos alguma coisa pra alguém, devemos saber que a entrega é um ato de amor. Não se pode doar, querendo aos outros se mostrar.
Isto não é doação. É exibição. É pura ostentação.
Cada um deve oferecer o que tem de melhor. Se for uma palavra, que seja bem usada.
Se for um carinho, que seja entregue bem quietinho.
Se for um bem material, não faz mal. Mas precisa-se doá-lo com o coração e guardar segredo desta doação.
Não precisamos contar que fazemos caridade. Quando doamos devemos é sentir felicidade. Sim, isso mesmo, uma grande felicidade por estar podendo proporcionar alegria ao outro.
Jesus dizia que não importava a quantidade de moedas, mas que fossem dadas com desprendimento.
Certa vez assistia a uma missa e o padre falou algo que me tocou. Ele falou na hora do ofertório que todos deveriam se dirigir ao local destinado a oferta. Quem não tivesse nem mesmo uma moeda para colocar ali, que entregasse um pensamento bom, um pedacinho de si mesmo.
Isto é que entendo por doar. Quando podemos dar um pouco de nós mesmos para outro alguém. Isso nos deixa com o coração leve, porque é algo espontâneo. Natural. Como a chuva que chega à terra seca sem se perguntar qual a vantagem que leva nisso.
Uma palavra, um pouco de amor, uma mão estendida pode salvar uma vida. Não podemos nos esquecer que todos que se aproximam de nós estão em busca de alguma coisa que temos para lhes oferecer.
É a lei da vida, é o mecanismo da grande engrenagem e cada um de nós é um elo.
Nem percebemos, mas estamos todos interligados, estamos nos dando as mãos para formar o que chamamos de humanidade. 


sonia delsin 


FELIZES PARA SEMPRE

Cresci ouvindo histórias de fadas, princesas com seus príncipes encantados e o tão famoso “felizes para sempre” no final.
Talvez um pouco sugestionada por elas minha cabecinha se enchia de fantasias, e eu acreditava piamente que meu príncipe encantado também chegaria.
Não seria um sapo, que com o encanto de um beijo transformar-se-ia em belo jovem.
Nem eu seria Cinderela.
Tampouco Bela Adormecida, Branca de Neve...
Mas sentia desde muito pequena que um dia conheceria alguém que seria muito, mas muito especial mesmo para mim.
Ele seria lindo, porque sempre a beleza me fascinou. Não falo só da aparência física, porque essa se deteriora com o tempo. Falo da beleza interior mais que tudo.
Sentia que nos conheceríamos e nos apaixonaríamos loucamente e viveríamos a nossa história. Uma digna de ser contada.
Ela me aguardava, estava escrito que assim seria porque eu a queria com toda força de meu coração.
Não precisei esperar muito pelo meu príncipe. Mal completara dezoito anos ele chegou na minha vida.
Com seu olhar aveludado me conquistou de imediato. O cupido nos flechou e a partir de então começamos a viver a nossa história.
Éramos tão jovens e ansiávamos por sensações diferentes.
Nós nos entregamos ao sentimento novo e ele coloriu todo o nosso mundo.
Já não éramos mais os donos de nós mesmos. Um pertencia ao outro.
Descobrimos que só conseguiríamos ser felizes se estivéssemos juntos, separados não éramos mais nada.
Temos vivido por tantos anos a nossa história de amor, não tão fantasiosa como os contos da carochinha, porque a realidade consegue ser esmagadora tantas vezes.
Mas continuamos sendo sempre um para o outro como nos primeiros tempos: apaixonados!
Somos príncipe e princesa agrisalhados, com uma bagagem de vida pesada, mas de mãos grudadas, para que um não se perca do outro.
Ainda buscamos a mesma estrela porque ainda somos os mesmos de sempre.

Existe um “felizes para sempre”, quando desejamos que assim seja.

sonia delsin 



EXCENTRICIDADE


Quando menina ainda, umas coisas estranhas aconteciam comigo.
Vinham à minha cabecinha muitos seres que tomavam forma e criavam vida.
Eu me isolava das pessoas e eles vinham, tomavam conta de meus pensamentos; nasciam, caminhavam, sorriam, morriam...

Naquele tempo eu não entendia ainda que eram personagens de histórias que eu deveria contar.
Para quem eu iria contá-las se a vida de meus pais era uma labuta que só?
Meus irmãos se interessariam ainda menos em ouvi-las. Os coleguinhas me julgariam louca de pedra se lhes falasse sobre isso. Os primos ririam.

Depois descobri que não saberia contá-las a não ser escrevendo, porque só assim é que eu conseguia me comunicar melhor. Mas eu ainda nem sabia escrever direito para colocá-las nos papéis.
Então elas cresciam dentro de mim e se misturavam às outras que minha mãe nos contava, antes de adormecermos. Minha cabeça virava um nó.

Aos nove anos comecei a ler bastante e a escrever razoavelmente. Tentava colocá-las nos papéis, mas faltava-me técnica. Não conseguia ainda me expressar bem.
Deixei para lá e comecei a devorar livros e mais livros.
Admirei aos dez, onze anos a literatura inglesa e americana e tornei-me uma leitora contínua e fiel.

Aos quinze comecei a botar os meus personagens nos papéis. Comecei a escrever poesias também.
Um dia, acabei me cansando de tudo.
Magoada com o mundo, na adolescência, joguei tudo fora.
Enterrei minhas histórias, as poesias. Nada daquilo me interessava mais.

Aos dezoito voltei a escrever e ainda tenho alguma coisa guardada daquele tempo.
Passei por períodos em que escrevia bastante, por outros em que quase nem escrevia. Afinal, neste tempo estava tratando de outras coisas que ocupavam todo o meu tempo.

Entre os trinta e trinta e cinco anos transformei-me numa verdadeira contista. Colocava no papel todos os personagens que insistiam sempre em me rodear. Resolvi assumir de vez que precisava registrá-los.
Manualmente e laboriosamente enchi folhas e folhas de papel.

Com os filhos crescidos, passei a ter mais tempo livre. Em posse de um computador mais tarde consegui digitar todas aquelas histórias guardadas por tantos anos.
Aos poucos elas foram crescendo. Nascendo outras e outras. Já digitando diretamente com os olhos no monitor vi nascerem pequenos romances, alguns maiores.

Se são ou não bons, só a crítica e meus leitores poderiam dizê-lo... (nunca consegui editá-los)
Não sei se ganhei técnica, se só escrevo como válvula de escape,  se é um dom natural...
Só sei que, às vezes, no meio da noite meus personagens surgem. Tomam forma, crescem. Pareço que engravido no meio da noite e para dar a luz preciso teclar infinitamente (fica até difícil aguardar o dia clarear e sobrar-me um bom tempo para sentar-me na frente do computador).

À medida que narro a história sinto-me como uma parturiente e eles criam vida.
Amo cada personagem com suas qualidades, seus defeitos. São como se fossem meus filhos, afinal precisaram de mim para nascer!

O que vou fazer de tudo isso? Só Deus o sabe!
Sei que lhes tenho um carinho intenso. Fazem parte de mim.
Estes meus tantos e tantos personagens estão de alguma forma vivos, no HD de meu computador e nos disquetes.

Ninguém ainda os conhece, a não ser eu. Quiseram nascer e eu lhe dei vida.
Eles são mesmo uma relíquia para mim. Conheço a força e fraqueza de cada um. Vibro com cada vitória deles e me entristeço a cada derrota.
Às vezes chego a pensar que eles já foram reais, num outro tempo.

É fascinante o dom de escrever. Conseguimos colocar a alma no papel. Amo as letras, os livros.
Certo dia minha mãe me disse algo pitoresco. Disse-me que, quando estiver no além, caso tenha uma chance de pedir ao Pai Eterno um lugarzinho, ela escolherá um jardim, com um canteirinho para plantar.
Mas do que depressa eu lhe respondi que se isso fosse possível eu pediria uma biblioteca, para poder continuar lendo infinitamente... e um computador para continuar escrevendo pelos séculos dos séculos...

Acho mesmo que nós, os “escritores”, somos seres excêntricos e na excentricidade todos os excessos são permitidos!

sonia delsin