EXCENTRICIDADE
Quando menina ainda, umas coisas
estranhas aconteciam comigo.
Vinham à minha cabecinha muitos seres
que tomavam forma e criavam vida.
Eu me isolava das pessoas e eles vinham,
tomavam conta de meus pensamentos; nasciam, caminhavam, sorriam, morriam...
Naquele tempo eu não entendia ainda que
eram personagens de histórias que eu deveria contar.
Para quem eu iria contá-las se a vida de
meus pais era uma labuta que só?
Meus irmãos se interessariam ainda menos
em ouvi-las. Os
coleguinhas me julgariam louca de pedra se lhes falasse sobre isso. Os primos
ririam.
Depois descobri que não saberia
contá-las a não ser escrevendo, porque só assim é que eu conseguia me comunicar
melhor. Mas eu ainda nem sabia escrever direito para colocá-las nos papéis.
Então elas cresciam dentro de mim e se
misturavam às outras que minha mãe nos contava, antes de adormecermos. Minha
cabeça virava um nó.
Aos nove anos comecei a ler bastante e a
escrever razoavelmente. Tentava colocá-las nos papéis, mas faltava-me técnica.
Não conseguia ainda me expressar bem.
Deixei para lá e comecei a devorar
livros e mais livros.
Admirei aos dez, onze anos a literatura
inglesa e americana e tornei-me uma leitora contínua e fiel.
Aos quinze comecei a botar os meus
personagens nos papéis. Comecei a escrever poesias também.
Um dia, acabei me cansando de tudo.
Magoada com o mundo, na adolescência,
joguei tudo fora.
Enterrei minhas histórias, as poesias.
Nada daquilo me interessava mais.
Aos dezoito voltei a escrever e ainda
tenho alguma coisa guardada daquele tempo.
Passei por períodos em que escrevia
bastante, por outros em que quase nem escrevia. Afinal, neste tempo estava
tratando de outras coisas que ocupavam todo o meu tempo.
Entre os trinta e trinta e cinco anos
transformei-me numa verdadeira contista. Colocava no papel todos os personagens
que insistiam sempre em me rodear. Resolvi assumir de vez que precisava
registrá-los.
Manualmente e laboriosamente enchi
folhas e folhas de papel.
Com os filhos crescidos, passei a ter
mais tempo livre. Em posse de um computador mais tarde consegui digitar todas
aquelas histórias guardadas por tantos anos.
Aos poucos elas foram crescendo.
Nascendo outras e outras. Já digitando diretamente com os olhos no monitor vi
nascerem pequenos romances, alguns maiores.
Se são ou não bons, só a crítica e meus
leitores poderiam dizê-lo... (nunca consegui editá-los)
Não sei se ganhei técnica, se só escrevo
como válvula de escape, se é um dom
natural...
Só sei que, às vezes, no meio da noite
meus personagens surgem. Tomam forma, crescem. Pareço que engravido no meio da
noite e para dar a luz preciso teclar infinitamente (fica até difícil aguardar
o dia clarear e sobrar-me um bom tempo para sentar-me na frente do computador).
À medida que narro a história sinto-me
como uma parturiente e eles criam vida.
Amo cada personagem com suas qualidades,
seus defeitos. São como se fossem meus filhos, afinal precisaram de mim para
nascer!
O que vou fazer de tudo isso? Só Deus o
sabe!
Sei que lhes tenho um carinho intenso.
Fazem parte de mim.
Estes meus tantos e tantos personagens
estão de alguma forma vivos, no HD de meu computador e nos disquetes.
Ninguém ainda os conhece, a não ser eu.
Quiseram nascer e eu lhe dei vida.
Eles são mesmo uma relíquia para mim.
Conheço a força e fraqueza de cada um. Vibro com cada vitória deles e me
entristeço a cada derrota.
Às vezes chego a pensar que eles já
foram reais, num outro tempo.
É fascinante o dom de escrever.
Conseguimos colocar a alma no papel. Amo as letras, os livros.
Certo dia minha mãe me disse algo
pitoresco. Disse-me que, quando estiver no além, caso tenha uma chance de pedir
ao Pai Eterno um lugarzinho, ela escolherá um jardim, com um canteirinho para
plantar.
Mas do que depressa eu lhe respondi que
se isso fosse possível eu pediria uma biblioteca, para poder continuar lendo
infinitamente... e um computador para continuar escrevendo pelos séculos dos
séculos...
Acho mesmo que nós, os “escritores”, somos seres
excêntricos e na excentricidade todos os excessos são permitidos!
sonia delsin

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