segunda-feira, 26 de agosto de 2013



PAI

Pena que não me lembro de quando era ainda um bebê.
As pessoas me contam que você vivia a me carregar para todo canto.
Devo ter gostado tanto disso!
Já um pouco maior eu guardo as minhas lembranças. Lembro-me de você brincando de bola comigo. Uma bola plástica azul e rosa, com uns desenhos em alto relevo do Pato Donald. Quantos anos eu teria, quatro ou cinco?
Você a chutou e ela rolou barranco a baixo indo cair no córrego. Não medi conseqüências, corri atrás dela e me joguei na água suja para tentar recuperá-la.
Não a recuperamos porque você só se preocupou em me socorrer depressa.
E quando eu o chateava com pedido: Deixa? Deixa?
Algumas vezes eu o vencia pelo cansaço.
Você era o meu herói. Lembro-me que era um homem autoritário e paciência nunca foi o seu forte.
Você foi um homem tão bonito, com seus cabelos tão pretos, seus olhos castanhos esverdeados. E o bigode que tanto eu lhe pedi que raspasse uma vez só para mim... nesta parte você nunca cedeu. Nunca o vimos sem o bigode.
Meu pai, você era um homem simples, mas existia alguma coisa especial que o fazia diferente. Chamam isso de carisma.
Eu adorava vê-lo trabalhando porque via que punha amor em tudo que fazia. Seu sangue italiano falava alto em você.
Como
amava a terra, a natureza!
E como falava, ó Deus! Argumentava o tempo todo. Queria que a última palavra sempre fosse a sua.
Na nossa meninice víamos você vestir todas os finais de tarde um terno bem discreto e sair.
Isso fazia parte de você.
Eu sempre esperava acompanhada da mãe lá na sala, enquanto ela me contava história e enquanto os velhos fantasmas nos visitavam.
Era tudo fruto de nossa imaginação? Talvez fosse mesmo.
Quando você chegava nos trazia sempre alguns doces. Os docinhos em formato de carrinhos e homenzinhos eram os meus preferidos. E cocada fita!
Você não me beijava efusivamente como eu desejava ser beijada. Me beijava só com os olhos e eu entedia tudo o que eles me diziam.
Eu o temia muitas vezes, mas o amava tanto! Os manos nem se aproximavam muito de você naquele tempo. Tinham certo receio.
Eu me arriscava mais e não me lembro de nenhuma surra, só me recordo de frases assim: “Não me amole menina”, “Deixa disso”, “Não insista”, “Vê se cria modos garota” e “Não, não e não”.
Em muitas ocasiões você demonstrou me amar intensamente e isto eu guardo no coração.
Talvez tenha compreendido a minha alma mais que qualquer pessoa do mundo. Você sentia quando eu sofria e era só com seus olhos incríveis que me acariciava. E que olhos, que carícias!
São tantas as lembranças de minha infância, tão doces!
De minha juventude tantas dores vividas.
Quando ficamos adultos, você já havia se desarmado daquela pose de pai sisudo e nos mostrava tal qual era lá no íntimo.
Que pessoa sensível se escondia lá no fundo!
Aos poucos fomos descobrindo-o, mas a depressão o enlaçou e quantos estragos lhe fez.
Pai, eu o sinto tão vivo ainda em mim. Para onde a morte o levou que você parece estar aqui, bem do meu lado, me vendo escrever.
Não quero mais recordá-lo naquele seu fim de vida no hospital. Me recuso a lembrá-lo morto.
Sinto que você está aqui, bem aqui, a me proteger de tudo... só com seus olhos maravilhosos. Sinto sua presença. Você não morreu, meu pai...

sonia delsin 

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