segunda-feira, 26 de agosto de 2013



A ALGUÉM QUE DEIXOU SAUDADES...

Meu querido tio, remexendo hoje numa caixa onde guardo velhos retratos, deparei com duas antigas fotografias suas.
Uma de frente, outra de perfil. Nas fotos você está com uma longa barba branca. Um perfeito Papai-Noel!
Enquanto e meus dedos deslizam sobre as velhas fotografias acaricio-as com os olhos.
Já se passaram quase vinte anos que você nos deixou. (Que mistérios as cortinas do tempo escondem que os mortos permanecem tão vivos dentro de nós?)
Tio, eu ainda posso ouvir sua voz e a maneira única que você tinha de dizer o meu nome.
Quando vivo nunca lhe envie uma só carta e não me lembro de ter dito uma única vez o quanto lhe queria bem.
Acho que nem precisava...
Você também nunca me disse, mas eu sentia o quanto me amava.
Quando eu era ainda uma menina você vinha nos visitar e trazia sempre uma porção de amigos. Eu adorava quando você chegava e nem pensava o quanto era difícil para meus pais hospedarem tantas pessoas.
Você era uma pessoa assim... sem limites, sob vários aspectos.
Enquanto escrevo fico imaginando se você estivesse aqui para lê-la, consigo mesmo imaginar a expressão de seu rosto.
De cada olho brotaria uma lágrima e desceria pela sua face.
Posso mesmo ver seus olhos negros, líquidos olhos...
Eles se enchiam de lágrimas quando você me contava as coisas da sua infância, de como fora difícil ser criado sozinho “neste mundo de meu Deus”.
Por quantas situações embaraçosas você passou até conhecer minha tia e casar-se com ela!
Tio, não havia laço de sangue nos unindo, mas existiam afinidades e carinho. Que podem significar os laços de sangue perante o amor?
Você deixou marcas em mim, muitas marcas.
Um dia eu comi uma conserva de jiló que você preparou. Só comi para lhe agradar. Você havia preparado com tanto gosto! Eu odiava jiló, mas amava você...
Como foram tristes seus últimos anos de vida! Aquela doença ingrata lhe fez sofrer tanto... e a todos nós.
A tia me presenteou com as fotos logo depois de sua morte. Contou-me que foi a única vez que você deixou a barba crescer.
Guardo os retratos com carinho e guardo-o afetuosamente em meu coração também. Um dia quem sabe a gente se reencontre... quem sabe...

sonia delsin 

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