segunda-feira, 26 de agosto de 2013



QUERIDO EMANUEL

Todas as tardes você vinha me ver. Não que eu fosse naquele tempo uma companhia agradável. Não, agradável era você!
Trazia sempre um sorriso no rosto e me estendia a mão com ternura.
Querido Emanuel! Nossos papos daquele tempo foram tão proveitosos.
Eu era uma pequena rebelde. Rebelava-me contra a realidade nua e crua e você vinha me contar coisas corriqueiras que me motivavam a crer no mundo.
Naqueles tempos eu desconhecia tantas coisas e experimentava a dor, a dor que leva ao desespero.
Você era bondoso por natureza e a natureza fora ainda mais prodigiosa em fazê-lo padre.
Você era especial com seu sorriso terno e com sua voz macia. Suas mãos seguravam as minhas e olhando nos meus olhos você me falava.
Éramos confidentes. Não que eu confessasse coisas a você como a um padre. Não, só éramos amigos e para os amigos eu podia falar o que eu pensasse. Eu desabafava meus sofrimentos, chorava no seu ombro.
Eu sei que você não achava perdido o tempo que passava comigo, você estava fazendo o seu papel de padre. Às vezes eu era intragável e em seus olhinhos tristes formavam-se lágrimas que você não derramava.
Pensava até que qualquer hora você descobriria que eu era um caso perdido, mas que nada! Você voltava com seu sorriso doce, mesmo quando na véspera eu fora tão azeda.
Ó Mane! Amigo de um tempo em que lutei bravamente com a vida.
Quando eu consegui vencer a primeira batalha quis que você compartilhasse da minha vitória e você ria e chorava comigo naquele dia.
Parecíamos até dois bobos a comemorar.
Nós nos desencontramos pelos caminhos do mundo.
Seu presente para mim foi um Evangelho que guardo como uma preciosidade. Certa vez você me enviou outro presente, um crucifixo de prata, que guardo com carinho imenso.
Desejei que fosse o padre a me casar, mas você se encontrava fora do Brasil naquela época.
Acabou celebrando o batizado de meu filho caçula tantos anos depois.
Meu querido amigo, sei que está tão envelhecido. Que mora numa cidade um tanto distante da minha.
Nunca mais aconteceu de nos reencontrarmos, mas não o esqueci jamais.
Você foi um dos anjos que Deus enviou para mim num tempo em que o que eu mais carecia de anjos.

sonia delsin 

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